
O governo dos Estados Unidos tem intensificado sua presença militar na América Latina, uma medida que reflete o aprofundamento de uma grave crise de saúde pública e de segurança dentro de suas próprias fronteiras. O consumo de substâncias ilícitas, especialmente os opioides como o fentanil, atingiu níveis alarmantes e tem sido a principal justificativa para a postura agressiva adotada pela Casa Branca. A abordagem, que remete à política de “guerra às drogas”, foca no combate ao crime organizado e aos cartéis de narcotráfico, vistos como a fonte primária do problema. Essa estratégia, no entanto, levanta complexas questões sobre soberania, cooperação internacional e a eficácia de soluções militares para desafios sociais.
Desde a metade do mês de agosto, as Forças Armadas americanas iniciaram o envio de tropas e ativos navais para a região do Caribe e para as águas próximas à América Latina. A missão, segundo fontes do Pentágono, tem como objetivo enfrentar e conter grupos criminosos transnacionais. A decisão tem como figura central o presidente Donald Trump, que desde o início de seu segundo mandato, adotou um discurso e uma postura de “tolerância zero” contra os cartéis. A urgência da situação foi destacada com a classificação de facções criminosas, como o Tren de Aragua, da Venezuela, e o MS-13, de El Salvador, como “organizações terroristas estrangeiras”. Esta designação, anteriormente reservada a grupos como a Al-Qaeda, sinaliza um novo e mais severo patamar na ofensiva contra o narcotráfico.
A lógica por trás da ação militar reside na crença de que a interrupção da cadeia de produção e distribuição de drogas em sua origem é a maneira mais eficaz de mitigar a crise nos Estados Unidos. O país enfrenta uma epidemia de overdoses, impulsionada pelo uso de substâncias como o fentanil, que é consideravelmente mais potente do que a morfina e a heroína. A cocaína, cuja produção se concentra em países como Bolívia, Colômbia e Peru, também continua a ser um problema significativo, atingindo cerca de 2% da população americana. Com isso, o governo dos EUA justifica o envio de destróieres de mísseis guiados e um grande número de fuzileiros navais, com o potencial de realizar não apenas vigilância e inteligência, mas também ataques direcionados.
Contudo, a iniciativa militar não tem sido recebida sem resistência. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, rejeitou publicamente a ideia de qualquer forma de intervenção estrangeira, reforçando o princípio da autodeterminação dos povos. Essa reação destaca a tensão histórica entre a política externa americana e a soberania dos países latino-americanos, que frequentemente se sentem pressionados a aceitar a presença militar estrangeira para resolver problemas que, em sua origem, são complexos e multifacetados.